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Carteirinha de Espírita – por Jacob Melo


“Jesus, porém, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas?”. (Mateus 22, 18)

Jesus, exemplo maior da bondade e do equilíbrio, o qual temos por modelo e guia (questão 625 do L.E.), costumeiramente usava de justo rigor contra aqueles que, sabendo o que faziam e o que de fato queriam atingir, eram considerados hipócritas.
E quando Poncio Pilatos o questionou se Ele era rei, sua resposta ecoou fundo: “Tu o dizes; sou rei!” (Mateus, 27, 11).

Em nosso meio espírita encontramos pessoas magistrais, fabulosas mesmo e portadoras de posturas da mais elevada dignidade e fidelidade aos mais nobres princípios morais. Em sua grande maioria vivem de forma quase anônima, como a deixarem espaço para que a intelectualidade se expresse livremente e de acordo com suas consciências.
Essas pessoas não precisam apresentar “documentos de filiação ou adesão”; seus comportamentos falam por si.

Por que, então, estou eu escrevendo sobre esse assunto? Carteirinha de espírita? E existe isso?

Hoje, pleno janeiro de 2014, um amigo questionou-me: - Jacob, se te pedem “carteira de espírita”, posso eu saber quem é ou qual órgão está credenciado para dar-lhe valor e validade?

Respondi com um sorriso.

Na verdade, ninguém me pediu carteirinha de espírita, mas pelo que andam falando parece haver necessidade dela existir, ainda que seja para uso exclusivo.

Faz mais de três anos que pela primeira vez soube que eu estava sendo apresentado como não-espírita; eu teria deixado de ser espírita e agora era apenas um magnetizador. Naquela ocasião ficou limpidamente claro que se tratava do explícito interesse em sugerir que eu não fosse convidado a falar, expor, estar presente ou participar de qualquer atividade espírita nas chamadas Casas filiadas ou adesas.

Contudo imaginei tratar-se de uma observação pontual e sem maiores implicações. Porém, depois desse primeiro episódio, muitos outros começaram a ser repetidos, tanto no Brasil como no exterior. Sempre alguém, que prefere se esconder no manto do anonimato, embora deixe aparecer a ponta de um véu chamado “cartilha da Casa superior”, a dizer que deixei de ser espírita e que pretendo transformar Casas espíritas em não-sei-o-quê.

Provavelmente este assunto não interessará a muitos leitores, mas àqueles que querem refletir sobre esse comportamento aqui apresentarei alguns pontos interessantes.

1- Desde a infância, sempre estive ligado ao Espiritismo e ao movimento espírita. Exerci quase todos os cargos diretivos da Federação Espírita do Rio Grande do Norte, ao longo de quase 30 anos. Saindo de lá, fundei o Grupo Espírita Allan Kardec e, no mesmo ano, fui um dos sócios fundadores do Lar Espírita Alvorada Nova, instituição da qual fui vice-presidente durante mais de 10 anos e atualmente sou seu presidente, desde agosto de 2013. Sou escritor, expositor, pesquisador, magnetizador teórico e prático e músico, tudo no campo espírita, estando atuando, com total vigor, em todos esses modos de servir, sempre a serviço do Espiritismo.

2- Dentre meus livros, um foi escrito com o simples interesse de deixar bem fundamentado, para quem quisesse estudar o Magnetismo, o elo de ligação dessa ciência com o Espiritismo. Coincidentemente, pouco tempo depois do surgimento desse “Reavaliando Verdades Distorcidas” aconteceu a arremetida de se dizer que deixei de ser espírita. Esta coincidência não foi assim tão casual; neste livro retrato, de forma inquestionável e sem sofismas, o que o senhor Allan Kardec e os Espíritos que, por suas observações, foram considerados Superiores, disseram acerca do vínculo do Espiritismo com essa ciência – só para me limitar aos textos mais explícitos, recomendo ao leitor interessado ler os comentários de Allan Kardec à questão 555 de O Livro dos Espíritos, a mensagem Magnetismo e Espiritismo, da Revista Espírita de março de 1858, e uma parte do artigo sobre Estatística dos Espíritas, publicado na Revista Espírita de janeiro de 1869.

3- Lembro que Allan Kardec, antes de ser espírita, foi magnetizador por 35 anos. Sua experiência naquela ciência deu-lhe autoridade suficiente para falar, indicar, ratificar e confirmar o vínculo do Espiritismo com o Magnetismo. Chegou a afirmar: “É sempre um erro cair nos extremos, e há tanto exagero em tudo reportar ao sonambulismo, como haveria, da parte dos espíritas, em negar as leis do magnetismo. Não se poderia roubar à matéria as leis magnéticas, do mesmo modo que, ao Espírito, as leis puramente espirituais” (Obras Póstumas, item 61). Todavia existem os muitos que, sorrateiramente, querem negar os vínculos entre as duas ciências bem como tirar do Magnetismo suas leis, que são naturais.

4- Disse Jesus: “E por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?” (Lucas, 6, 46). Estaria Ele, porventura, querendo ouvir: “sou espírita de carteirinha” no lugar do “veja meus frutos e diga de que árvore sou”? O estudo, a compreensão, a prática e a vivência do magnetismo é a mais rica manifestação da ação espírita, especialmente no vasto campo denominado “Consolador”. E quando queremos falar de fé, não precisa muito; basta busquemos O Evangelho Segundo o Espiritismo, em seu capítulo 19, mensagem “A fé humana e a fé Divina”. Ali, de uma maneira tão clara quão lógica, é apresentada a força do Magnetismo nas curas e na fé, além de concluir apresentando que tudo “não passa de um desenvolvimento das faculdades humanas”. Honestamente: isto deve deixar em polvorosa esses que querem deter o poder de dizer quem é ou quem deixa de ser espírita!

5- Não, não há desrespeito a Casas, ideias, maneiras de ver e pensar, como não há conivência com erros e interesses subalternos, ainda que o preço a ser pago seja o da perseguição, dissimulada ou ostensiva, hipócrita ou descarada, em todo caso, porém, totalmente antiespírita. Uma pessoa que mantém um site (www.jacobmelo.com), atualizado quase que diariamente, apresentando palestras em vídeo (com data de ocorrência), programas gravados em áudio, artigos e opiniões, fotos e dados de instituições sérias que servem aos seres humanos que pedem, procuram e precisam ser acolhidas de forma real e promissora, essa pessoa não precisa fingir ser o que não é.

6- Mas imaginemos que eu não seja espírita. Em que isso diminuiria a ação que desenvolvo? Em que minha moral estaria afetada? Mas, ao contrário, os que comungam de uma maior proximidade comigo sabem que já rejeitei convites de pessoas que ofereceram grandes vantagens para que eu levasse os conhecimentos que vivencio para áreas não espíritas, pois ali o contingente dos beneficiados seria milhares de vezes maior do que o universo espírita, além de me oferecerem compensações que, para uma larga quantidade de pessoas, seriam irrecusáveis. Talvez o anti espiritismo esteja presente no fato de eu abrir mão de atender a um número muito maior de necessitados para seguir me esforçando para que os espíritas vejam o que tem sido desvirtuado há mais de um século e meio. Seria isso o que eles alegam?

7- Ainda no raciocínio de eu não ser espírita; se isso me denegriria é porque eu estaria me perdendo. Assim sendo, os fiéis seguidores do Evangelho pensariam no fato de que “não são os que gozam saúde que precisam de médicos”, portanto eu deveria ser acolhido, exatamente para que não fosse perdida “a ovelha”. Mas não me parece que essas pessoas pensam assim. Elas preferem jogar fora as sobras do que servirem aos que passam privações. E não nos iludamos: os que querem rotular as pessoas são exatamente as mesmas criaturas que dizem defender a união, o ecumenismo, a fraternidade, a aproximação dos seres humanos num só redil... Que nome daríamos a isso? Conforme anotado acima, Jesus chamou de hipocrisia.

8- Um dos argumentadores de que eu não mais sendo (na opinião dele) espírita, tendo recebido a informação de que minhas palestras apontavam exatamente na direção de que minhas abordagens são eminentemente espíritas, logo rebateu dizendo que essas palestras são antigas, pois as atuais não falam mais de Espiritismo. Ironicamente, algumas pessoas já me pediram para que eu fale mais em outros autores além de Allan Kardec, exatamente porque sou considerado uma pessoa muito lastreada no codificador e, nas opiniões dessas pessoas, parece ficar faltando abordagens menos kardequianas... Quiçá esse seja um ponto que tanto incomoda os “classificadores” do meio espírita, pois me rotulam de não-espírita, mesmo com toda minha argumentação tendo fundamento nas obras desse grande mestre.

9- Mas... Por que será que eles querem me apresentar como não-espírita? Será só porque acham difícil se reformularem na forma como andam interpretando o mestre lionês e seus escritos? Certamente que não é só por isso. Imagino o quanto deva ser incômodo, depois de tantas décadas orientando as pessoas algo visivelmente equivocado, agora ter que desdizer e reorganizar os conhecimentos e os saberes que estabeleceram, mas deve haver algo mais imperioso por traz disso tudo. Afinal, o vínculo do Magnetismo com o Espiritismo não foi ideia nem construção minha (que pena, que pena!!!) e sim do próprio Allan Kardec e dos Espíritos que, juntamente com ele, compuseram todo o arcabouço e corpo da Doutrina de tríplice aspecto. Como poderão eles assumirem que estiveram ensinando um antiespiritismo? Será mais fácil fazer mira naquele ou naquilo que os deixe a descoberto.

10- Surge então meu nome no cenário. Afinal, o que é, quem é Jacob Melo? Um nordestino sem projeção que anda se metendo a “reavaliar” o que vimos dizendo e repetindo ao longo de mais de um século. Sendo assim, devem imaginar, basta desacreditá-lo, acusa-lo de não-espírita e logo será esquecido e tudo será como sempre foi e como jamais deverá deixar de ser. Não fica, pelo menos é o que sinto, raivas ou iras pessoais contra minha pessoa, mas ação objetiva para estancar essa onda de fazer as pessoas racionarem de que é possível ajudar, aliviar e curar pessoas, almas, seres... Afinal o Magnetismo pode ser praticado em qualquer lugar e por qualquer pessoa, desde que se saiba o que e como se fazer. Isso gerará liberdade, ação sem vínculos de subalternidade e possiblidades de se mudar sofrimentos em superações, gratidões diretas a Deus em vez de dependências às Casas. Nesse cenário, nada melhor do que desacreditar a pessoa que se propôs a reavivar os valores do Magnetismo no seio espírita e da própria humanidade.

11- “A depressão é doença da alma”, dizem, e só mesmo uma mudança (reforma) íntima será capaz de fazer frente a esse mal. “Não é possível que uma terapia magnética seja capaz de reverter um quadro depressivo”, afirmam. “As palestras são o melhor remédio, a prece o melhor socorro, a fé a única tábua de salvação”, vociferam, condenando ainda mais quem já se sente irremediavelmente condenado pela própria força imobilizante da enfermidade. Mas quando nada disso parece funcionar, se negam a prestar o mais do que relevante serviço que o verdadeiro Magnetismo oferece para socorrer almas que tem se precipitado à morte ou à vegetabilidade da vida apenas. Parece preferirem orar pelas almas que se perderam do que ajuda-las a se encontrarem enquanto estão a caminho. – Posso estar sendo ácido, mas a realidade é mais cruel do que estas palavras.

 

Sim... Jesus tinha uma carteirinha: sua atitude, sua palavra, seu olhar. Ainda não existia o cristianismo, mas havia Ele, pois Ele era o que

Por fim, parafraseando Jesus a Pilatos: sou magnetizador sim, tu mesmo o dizes, mas esqueces de acrescentar: sou Magnetizador Espírita, com enfáticas letras maiúsculas.

 


Conhecer e Estudar o Magnetismo

Por Jacob Melo

 

O comentário que faz Allan Kardec à questão 555 de O Livro dos Espíritos é norte inflexível de uma verdade tão grave como séria, tão relevante como indubitável; e ele não poderia ter sido mais enfático e firme do que deixou registrado nessa obra ímpar:

O Espiritismo e o magnetismo nos dão a chave de uma imensidade de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu um sem-número de fábulas, em que os fatos se apresentam exagerados pela imaginaçãoO conhecimento lúcido dessas duas ciências que, a bem dizer, formam uma única, mostrando a realidade das coisas e suas verdadeiras causas, constitui o melhor preservativo contra as idéias supersticiosas, porque revela o que é possível e o que é impossível, o que está nas leis da Natureza e o que não passa de ridícula crendice”. (grifei)

Como nos propomos ser espíritas, será que cabe deixar o Magnetismo à reboque, como algo dispensável e menor? Estaria Allan Kardec equivocado nesse item? Por toda experiência que tenho – mais de 45 anos estudando o assunto – não consigo descobrir qualquer equívoco dele nem como largar o Magnetismo ao ostracismo, ao esquecimento, ao descaso. Percebo sim que temos perdido um tempo enorme, uma potência espetacular, por deixar tão magno assunto de lado. Tudo isso nos tem levado à ingênua e vã tentativa de transformar fábulas em ciências exatas; o exagêro da imaginação evidentemente nos arremete ao não-estudo e ao desconhecimento da realidade; superstições brotando vigorosas em nosso meio, sem que quase nada seja feito para iluminar mentes e corações ávidos por ajudas, bênçãos e luzes, reforçam o alto preço que estamos pagando; e isso culmina por nos apresentar como criaturas ridículas já que nos dizemos filósofos, cientistas e religiosos, porém cheios de crendices insustentáveis.

Será que escrevi de forma dura? Basta reler o texto acima e facilmente se perceberá que a dureza reside em nossa acomodação, na maneira pouco elogiosa com que temos nos comportado ante a base espírita.

Ou será que essas duas ciências, Espiritismo e Magnetismo, não formam, de fato, uma base homogênea, um chassis que une todos os componentes do veículo de nossos saberes por se desvendarem e se firmarem?

Se Allan Karde estava – e está – correto, então é mais do que urgente que voltemos a estudar o Magnetismo.

Na introdução do mesmo livro básico mencionado acima, em seu item 8, ele pedagogicamente nos orienta:

“O que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá. Será de admirar que muitas vezes não se obtenha nenhuma resposta sensata a questões de si mesmas graves, quando propostas ao acaso e à queima-roupa, em meio de um aluvião de outras extravagantes? Demais, sucede freqüentemente que, por complexa, uma questão, para ser elucidada, exige a solução de outras preliminares ou complementaresQuem deseje tornar-se versado numa ciência tem que a estudar metodicamente, começando pelo princípio e acompanhando o encadeamento e o desenvolvimento das idéias”.

Interessante é que a primeira frase desse trecho costuma ser muito repetida entre nós, os espíritas, mas raramente se vai até o ponto acima anotado. Por que será? Teremos receio de alguém nos perguntar sobre o que seria preliminar e complementar ao estudo básico do Espiritismo? Por outro lado, se queremos mesmo manter, preservar e até ampliar a feição de ciência do Espiritismo, por qual princípio iniciaremos nossos estudos e como encadaremos nossas pesquisas, os avanços necessários, o desenvolvimento desse manancial de instruções?

Não, não preciso escrever muito para dizer que estamos devendo a Kardec e aos Espiritos Superiores melhor empenho e mais observação aos fenômenos que nos circundam e instigam. Por isso mesmo quero concluir com mais uma rápida referência dele, no mesmo LE, na questão 455:

“Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais do que um fenômeno psicológico, é uma luz projetada sobre a psicologia. É aí que se pode estudar a alma, porque é onde esta se mostra a descoberto”.

E então, o que será, de verdade e verdadeiro, que ele quis dizer com isso? Estaremos mesmo buscando estudar a alma? E como fazê-lo sem o Magnetismo, sem o sonambulismo, sem o Espiritismo?

Amigos e irmãos: reflitamos sobre tudo isso com isenção de ânimos, mas no firme propósito da fidelidade honesta e feliz para produzirmos o bem que o Bem espera de todos nós.

 

Grande abraço aos queridos amigos dessa abençoada Ribeirão Preto.